PLANETA COPA – Gerson Nogueira – 19.06.14

19 de junho de 2014 at 10:56 am Deixe um comentário

Castigo ou maldição da amarelinha?

Foi bonito e grandioso. No Maraca lotado, o Chile conseguiu um feito histórico, eliminou a campeã Espanha e garantiu presença nas oitavas de final. Acima de tudo, porém, chamou atenção a apagada atuação do atacante Diego Costa, que esnobou convocação da Seleção Brasileira para abraçar a causa espanhola, alegando que tinha sido bem tratado lá. Está há poucos anos residindo e jogando no país, mas já se considera um autêntico nativo. Tão enturmado está que até já concede entrevistas com sotaque madrilenho. Desconfio dessas paixões instantâneas, na vida ou no futebol.
O torcedor, em sua sabedoria, não perdoou Diego Costa. Depois da decisão da Champions League, tratou com métodos pouco ortodoxos uma lesão muscular grave. Sua participação no Mundial esteve ameaçada até a última semana antes da viagem para o Brasil, mas acabou se confirmando.
Daí a Onde ele se apresentou nesta Copa foi ruidosamente apupado sempre que tocou na bola. Aconteceu isso na estreia diante da Holanda e ontem a situação se repetiu. Em função da vaia e da inconsistência criativa do meio-de-campo de sua seleção, o artilheiro do Atlético de Madri não conseguiu brilhar. A rigor, só apareceu no lance do pênalti cavado contra os holandeses. E ficou nisso.
Penso que determinados castigos impostos pelos deuses do futebol, por mais cruéis que sejam, têm sempre várias causas. Não se pode dizer que Costa está na raiz do infortúnio espanhol, mas é justo afirmar que ele foi parte dos muitos problemas de Vicente Del Bosque. Como não tinha goleadores à sua disposição, o técnico e a federação espanhola fizeram um grande esforço para contar com o artilheiro brasileiro. Jornais espanhóis não fizeram segredo sobre os estímulos extras oferecidos ao atleta.
Quando um brasileiro naturalizado sem chances na Seleção é chamado para defender outro país, não há qualquer tipo de reação do torcedor. Todos compreendem a opção feita, inclusive do ponto de vista da carreira. Mas quando, como no caso de Costa, o jogador recusa uma convocação para defender a bandeira de seu país a história muda de figura. A definição de mercenário, quase em desuso no futebol globalizado de hoje, se aplica perfeitamente a esse caso.
Antes dele, um outro atacante também deixou a Seleção de lado para honrar outra camisa. Eram outros tempos, mas Altaffini Mazzola foi muito criticado quando optou pela Azzurra, em 1958. Ele, porém, tinha um argumento bastante forte: era italiano de origem. Costa é nordestino, sem qualquer vínculo com a Espanha.

Técnicos não sabem assimilar tropeços

Depois do frustrante empate com o México, em Fortaleza, Felipão retomou a persona azeda e respondeu com rispidez algumas perguntas a ele dirigidas pelos repórteres. Lembrou a triste figura de Zagallo, que era uma simpatia depois das vitórias e mal-educado nos tropeços. Para justificar o mau passo da Seleção, o técnico apelou para o velho truque de valorizar o potencial do adversário. Encheu a bola dos mexicanos, como se de repente o time de Peralta e Guardado tivesse virado um real candidato ao título mundial.
É claro que Felipão sabe das limitações do time que parou a Seleção, mas nada é mais embaraçoso do que admitir a incapacidade de superar um oponente limitado. Daí os resmungos e a dificuldade em reconhecer que o Brasil involuiu em relação à partida contra a Croácia. Naquela ocasião, o time teve mais iniciativa e entusiasmo, foi agressivo quando necessário, apesar dos percalços. Diante do México, reinou a apatia. Neymar concentrou as jogadas, enquanto seus companheiros pareciam esperar que ele resolvesse a parada.
Ninguém ganha Copa do Mundo concentrando tudo nos pés e na cabeça de um jogador. Torneios curtos permitem façanhas inimagináveis, mas raras vezes uma seleção foi campeã dependendo de tão poucas opções criativas.

Maior destaque individual vem da Holanda

Van Persie é um dos grandes atacantes do futebol mundial há pelo menos seis anos. Une força e técnica, oportunismo e habilidade. Parece que deixou para mostrar todo o seu repertório nesta Copa. Sorte dos que amam este jogo. Logo no primeiro jogo fez um dos gols mais bonitos do torneio ao voar para um cabeceio contra o arco de Casillas. Ontem, diante da Austrália, em momentos difíceis da partida, voltou a brilhar intensamente. Marcou gols decisivos, revelando a facilidade para jogar sob pressão. Foi fundamental para a virada holandesa em Porto Alegre.
Ao lado de Robben, é uma ameaça permanente para qualquer defesa. Alto, sabe cabecear muito bem. Inteligente, desloca-se por todos os lados da área e quase sempre surpreende os defensores. Anda jogando tão bem que lembra até a perícia de Dennis Bergkamp, outro cracaço da Laranja Mecânica.

Invasões desafiam o padrão Fifa

Na Copa das Copas, a qualidade dos times e a alegria das torcidas têm superado todos os problemas de infra-estrutura, mas alguns descuidos comprometem o chamado padrão Fifa de segurança. Se algumas sedes esbanjam organização, como Fortaleza e Salvador, em outras a situação beira a bagunça. O Maracanã, um dos mais bonitos estádios do Mundial, tem sido alvo frequente de invasões de torcedores sem ingressos. Aconteceu no jogo da Argentina e se repetiu ontem antes de Espanha x Chile. Mais de 100 chilenos arrombaram portões e chegaram até a área reservada aos profissionais de imprensa.
O triste espetáculo assusta as plateias que têm lotado os estádios e passa uma péssima imagem da organização da Copa. O rigor na fiscalização de acesso, que é tão forte em relação a jornalistas e radialistas, deveria se estender a todos os que entram ou buscam entrar nas arenas.

Empate sem gols frustra uma cidade

Fortaleza viveu um dia de ressaca ontem, depois de ter abrigado milhares de visitantes, mexicanos e brasileiros de outros Estados. Todo o entusiasmo das torcidas nos dias que antecederam o jogo arrefeceu com o empate sem gols. Taxistas e garçons eram os que mais lamentavam a súbita mudança de ânimo, pois apostavam alto na euforia dos vencedores para obter um bom faturamento. Apesar dos pesares, as pessoas seguem confiantes no Brasil e as bandeiras nas ruas atestam esse sentimento. E, dependendo da caminhada da Seleção, a arejada capital cearense voltará a ser palco de um grande jogo do escrete nas quartas-de-final.

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