PLANETA COPA – Gerson Nogueira – 21.06.14

21 de junho de 2014 at 12:03 pm Deixe um comentário

Equilíbrio prevalece, por enquanto

Não se tem notícia de uma Copa do Mundo com tantas alternativas, surpresas e revelações de zebras na era moderna do futebol. É tudo ao mesmo tempo, agora. A rigor, quase todas as seleções que estão em ação nesta primeira fase (com a exceção óbvia das já eliminadas Espanha, Inglaterra, Austrália e Camarões) têm possibilidades de chegar à decisão. Não se está falando do tradicional papo de boleiro, que receita respeito aos adversários, mesmo os mais fraquinhos. Não. A história aqui é pra valer. Ou alguém tem dúvida de que a ousada Costa Rica, algoz de duas tradicionais escolas futebolísticas, tem chances de ir longe?
É uma Copa inteiramente diferente de todas as demais, a começar pela presença maciça da torcida em todos os jogos. Na África do Sul, cansei de ver estádios semi-desertos e povoados de crianças de escolas públicas.
Mas para os fãs do jogo o que importa é a qualidade dos espetáculos mostrados até agora. E há uma palavra que define bem o que se viu até agora: equilíbrio. Até nos escores, quase sempre apertados. Apenas Holanda, Alemanha, Croácia e França se destacam na artilharia. Aplicaram goleadas em seus primeiros jogos, com méritos maiores para alemães e holandeses, que massacraram Portugal e Espanha, respectivamente. A Croácia bateu Camarões e a França sapecou 3 a 0 em Honduras e 5 a 2 na Suíça, feitos que não podem ser comparados aos das outras equipes citadas.
Já em termos de posicionamento em suas chaves, os destaques são Costa Rica, Chile e Colômbia, todos de língua espanhola e jogando em altíssimo nível. Conquistaram a classificação em grupos difíceis, vencendo e convencendo.
A maioria dos participantes, porém, se concentra ali na zona intermediária, embolados. São os que ainda não deslancharam totalmente. O bloco é puxado pelos arquirrivais Brasil e Argentina. Favoritos naturais, ambos mostraram pouco mais do que o básico nas estreias e a Seleção Brasileira já tropeçou no México, semeando certo desapontamento entre os torcedores.
Com base em outros mundiais, cabe guardar cautela quanto às projeções de caminhada nas fases eliminatórias. Exemplos como o da França em 1958, da Holanda em 1974, do Brasil em 1982 e da Dinamáquina em 1986 desaconselham palpites entusiasmados a essa altura do campeonato. Alguns
Até porque o mundo já descobriu, assombrado, que alguns times que capengaram na primeira fase se transformaram nos jogos de mata-mata, partindo para glórias inimagináveis. A Itália de 1982 é talvez o maior de todos os fenômenos de transfiguração, saindo de uma etapa inicial sofrível para um título mundial incontestável.
Por ora, vale seguir a antiga lição de mestre João Saldanha. Segundo ele, o importante é desfrutar da festa de bola que é a Copa do Mundo.

A saga de um carrasco de favoritos

A Costa Rica chegou de fininho, sem fazer muito alarde, como cabe a participantes sem pedigree. De figura carimbada para fazer turismo na Copa, a seleção já deixou a condição de simples coadjuvante. Depois de vitórias categóricas sobre Uruguai e Itália, garantiu classificação antecipada e o direito de sonhar com trajetória inédita na competição. Chama atenção a sua forma organizada e lúcida de jogar. Bem preparada fisicamente, a equipe se defende com vários jogadores e se reposiciona para atacar com três e até quatro homens, o que lhe permite controlar a bola na intermediária inimiga e esperar o momento do arremate. Como chega muito bem pelos lados do campo, alterna cruzamentos bem ensaiados para a área. Foi dessa forma que surpreendeu o Uruguai e matou a Azzurra, ontem.
É preciso considerar, porém, que no jogo contra os italianos houve a decisiva contribuição do fator climático. Sob temperatura de quase 30 graus, as duas equipes sofreram um desgaste acentuado, mas a Itália passou a se arrastar em campo nos últimos 30 minutos. As seguidas pausas técnicas não foram suficientes para atenuar o visível sofrimento do time de Prandelli. Até Pirlo, impecável nos passes e lançamentos, errou quatro vezes nos minutos finais.
De maneira geral, porém, esse detalhe não tira os méritos de Costa Rica, cujo expoente máximo é Brian Ruiz. Além dele, há o goleiro Navas, o volante Yeltsin e o atacante Campbell. Os demais são carregadores de piano, mas como correm e se doam ao time…
O fato é que, no justificadamente apelidado de Grupo da Morte, brilha até agora uma seleção pouco badalada da América Central, que deixou no chinelo dois times caros e respeitados. Já é um feito respeitável.

Ataque francês desmancha ferrolho

Já faz algum tempo que a França assumiu um papel de vilã no imaginário do torcedor brasileiro. Os motivos são bem conhecidos. Em 1986, Platini & cia. impôs uma dolorosa e injusta eliminação (nas penalidades) à seleção dirigida por mestre Telê Santana. Depois, veio a pior de todas as batalhas: a final de 1998, quando a até hoje mal explicada convulsão de Ronaldo abriu caminho para Zinedine Zidane brilhar intensamente. Finalmente, em 2006, a derrota mais idiota de todas, propiciada por um descuido de Roberto Carlos, que resolveu ajeitar o meião junto na hora de um cruzamento que atravessou a grande área endereçado aos pés de Thierry Henry.
Circunstâncias mais do que suficientes para tornar o Brasil freguês de carteirinha dos franceses. Para a Copa atual havia o indicativo de que, sem Frank Ribéry, não haveria força capaz de levar a França ao alto do pódio. O equilíbrio reinante – tema do texto principal de hoje – e a eficiência ofensiva da seleção de Didier Deschamps parecem desmentir essas primeiras impressões. Benzema assumiu a responsabilidade de liderar o renovado escrete e tem tido a companhia de atacantes igualmente ligadíssimos.
Contra a Suíça, dona de um sistema defensivo sempre enaltecido, a França meteu três gols logo no primeiro tempo, com extrema facilidade. Inversão de posicionamentos e muitas trocas de passes foram fundamentais para confundir a marcação. No segundo tempo, vieram mais quatro gols, dois para cada lado, mas a goleada estava definida. O jogo teve também o primeiro pênalti desperdiçado (por Benzema) e o primeiro gol em cobrança de falta da Copa.
Todo cuidado com essa França aparentemente despretensiosa e com discurso de humildade.

Pitacos de um professor

Um leitor assíduo da coluna, certamente um dos 27 baluartes, Rosemiro Pamplona escreve atenciosa mensagem discorrendo sobre a desafortunada seleção da Espanha. “Caro Gerson, depois que me aposentei como professor universitário resolvi virar palpiteiro de futebol. E iniciando minha nova vida gostaria de “falar” sobre a seleção espanhola (tenho descendência espanhola basca) e comparando-a com a seleção brasileira”.
Rosemiro observa que, em 1958, “fomos campeões do mundo pela primeira vez com o talento do jovem promissor Pelé e o anjo das pernas tortas Garrincha. Repetimos o feito em 1962 (praticamente com o mesmo time, porém 4 anos mais velho). Infelizmente, Pelé se contundiu, porém , o nosso Mané resolveu tudo. Em 1966, na Inglaterra, foi um fiasco. Fomos eliminados por Portugal no terceiro jogo. Esta Copa foi histórica, pois marcou o último jogo em que Pelé e Garrincha jogaram juntos (ganhamos de 2 a 0 da Bulgária)”.
Sobre a derrocada da Espanha, ele avalia que a seleção foi vítima de envelhecimento de sua espinha dorsal. “O time ganhou quase todos os títulos que disputou desde 2006. No time atual, sete jogadores que disputaram o último mundial na África do Sul foram convocados para 2014. Infelizmente, como a seleção brasileira em 1966, foi um fiasco sendo eliminada no segundo jogo”.
Quanto ao Brasil, Rosemiro questiona as convicções de Felipão, para quem o time melhorou contra o México. “Égua, ter um timoneiro como ele me causa arrepios. Se os times americanos (norte, central e sul) continuarem ganhando (Che Guevara deve estar feliz), então vamos ter uma nova versão da Copa América fora de época”.

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