PLANETA COPA – Gerson Nogueira – 22.06.14

22 de junho de 2014 at 11:15 am Deixe um comentário

Os caixotes que rondam Neymar

Quando Pelé reinava nos gramados, marcadores seus batiam cabeça para tentar conter as arrancadas e dribles infernais. Inutilmente. Com Mané Garrincha as tentativas eram ainda mais patéticas. O monstro das pernas tortas desmoralizava laterais e beques. Com Diego Maradona ainda foi assim. Quando surgiu no começo dos anos 80, as jogadas de El Pibe eram esquadrinhadas e avaliadas. Apesar disso, ninguém encontrou um antídoto eficaz.
Nos últimos tempos, grandes jogadores passaram a ser mais estudados ainda. Em consequência, passaram a ter menos tempo de brilho e permanência no topo. Aconteceu com Ronaldo Fenômeno, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho e certamente vai ocorrer também com Cristiano Ronaldo, Lionel Messi e Neymar.
Com Messi, a marcação conseguiu relativo sucesso, influenciando muito na decadência experimentada pelo Barcelona. Nos últimos dois anos, o time mergulhou em vertiginosa queda, sem ter perdido nenhum de seus craques. Uma das causas: Messi, o astro da companhia, passou a ter seus avanços em campo cuidadosamente monitorados. Como é craque indiscutível, continuou a fazer gols e a dar show, mas não com a frequência de antes.
Nesta Copa, contra a Bósnia, Messi só foi Messi no segundo tempo, quando achou uma faixa de campo mais propícia para avanços e tabelinhas. Ganhou a companhia de um atacante forte, Higuaín, que assumiu o papel de pivô, despovoando a entrada da área.
Em proporção menor, Neymar trilha uma situação muito parecida. Do jogador surpreendente das duas últimas temporadas, passou a ser mais previsível. Seus dribles curtos e arranques inesperados não surtem mais o mesmo efeito devastador sobre as defesas inimigas.
Na Copa das Confederações, ele ainda conseguiu se sobrepor ao cerco dos defensores, trocando constantemente de posição no ataque. Na Copa, já não adianta trocar tanto de lugar, pois sempre aparecem três ou quatro homens no seu caminho. A Croácia jogou dessa maneira, embora afrouxando junto ao meio-de-campo, mas o México cuidou do bloqueio com disciplina e método.
Sob o comando de Rafa Márquez, a zaga mexicana chegou a encaixotar Neymar com até quatro jogadores de uma vez só. Ele driblava um, dois e parava no terceiro. Sem companheiros para dialogar e inverter funções, via-se obrigado a permanecer com a bola e, quanto mais tempo ficava com ela, aumentava o cinturão de zagueiros à sua volta.
Pela gravidade da situação, a comissão técnica do Brasil certamente já identificou o problema. Felipão e Parreira devem estar buscando alternativas, mas é cada vez mais improvável que a um jogador tão importante quanto Neymar seja concedido espaço para manobrar. Contra Holanda ou Chile nas oitavas, primeira parada eliminatória, o policiamento ao único craque brazuca deve ser mais ampliado.
Aí volta-se ao ponto inicial da história: só o próprio Neymar pode buscar meios de fugir à marcação, com habilidade e alguma matreirice.

Batalha perdida nas arquibancadas

Uma Copa que periga virar uma versão mais encorpada da Copa América, como bem lembrou o professor Rosemiro Pamplona, já é dominada por cores, aromas, danças e cantorias marcadamente latinas. Até aí, tudo bem. Afinal, Copa é também um evento de alegria, música e festa.
O problema é que nossos vizinhos de América Latina estão cada vez mais ruidosos, fazendo prevalecer sua paixão futebolística na força do gogó. Espetáculos maravilhosos da participação das torcidas já foram vistos nos jogos do México, Uruguai, Colômbia, Chile, Costa Rica, Equador e Argentina. Curiosamente, mesmo na condição de país-sede, a torcida brasileira destoa, fazendo papel tímido diante da barulheira dos hermanos.
Isso aconteceu no Itaquerão, em São Paulo, e na Arena Castelão, em Fortaleza. Por razões mais ou menos conhecidas, a Seleção Brasileira tem recebido menos incentivo do que seus adversários, principalmente os americanos do centro e do sul. Na última terça-feira, o que se viu foi um verdadeiro massacre mexicano em termos de animação e entusiasmo.
Até os gritos de guerra eram mais condizentes com um campo de futebol. Enquanto os nossos repetiam o coro “Brasil, Brasil”, os visitantes mudavam de canção a todo instante, intercalando com palmas e até sapateado. Um verdadeiro show.
Quando muita gente tenta conceituar essa desigualdade no incentivo aos times, seria oportuno observar que as torcidas na América do Sul há muito tempo se comportam com muito mais ardor do que a galera brasileira. Argentinos, paraguaios, uruguaios, chilenos e colombianos são normalmente muito mais intensos, cantando a plenos pulmões e não deixando de apoiar suas equipes por um minuto sequer.
Chega a ser estranho para quem não está acostumado, mas esses torcedores chegam a gritar e cantar mais forte ainda quando seus times estão perdendo. Obviamente, Isso funciona como um apoio extra, fazendo com que os jogadores se sintam mais confiantes.
Em Fortaleza, quando a seleção de Felipão mais precisava de calor humano, baixou um silêncio constrangedor no estádio, logo seguido de uma ensurdecedora e irônica claque mexicana. E, em meio às canções de louvação a Giovani dos Santos e seus companheiros, versos da massa em verde-e-vermelho questionavam por que os brasileiros se comportam como visitantes em sua própria casa. Faz sentido.
A única explicação plausível é que o Brasil tem a acompanhá-lo nos estádios uma casta de “turistas do futebol”, que tem poder aquisitivo para comprar os caros ingressos da Copa, mas não conhece as manhas das arquibancadas. São pessoas que vão ao jogo para acompanhar e torcer, mas jamais tomam a iniciativa de gritar ou incentivar. Palavrões, então, nem pensar – a não ser que seja para insultar a presidente da República. Coxinhas, como são chamados pelos torcedores de verdade, não sabem como reagir quando o time vai mal.
Manifestam-se cantando o hino nacional de forma contrita, emocionada, à capela, mas silenciam no momento de empurrar o escrete. Nesse aspecto, apesar de donos da casa, estamos em franca desvantagem em relação às seleções vizinhas. Como o torneio tende a ser equilibrado até o final, o calor da torcida pode pesar na balança.

Confiança só volta com gols

Para curar a desconfiança que tomou conta da torcida depois do empate em Fortaleza só há um remédio: golear. Dos grandes times da Copa, apenas Brasil e Argentina não golearam nos primeiros jogos. É uma questão de respeito sobre os adversários e de tranquilidade para o público interno. Mas, para fazer muitos gols, como na Copa das Confederações, a Seleção precisa ser intensa, correr muito e sufocar quando não houver outro recurso.
Até agora, essas virtudes não se revelaram. Já é tempo.

Patrulha não vai calar o grito das massas

E antes que alguém se encha de melindres com os gaiatos gritos da torcida mexicana, é oportuno lembrar que se trata de uma antiga tradição dos estádios de futebol no país. Quando a bola para, em tiros de meta ou cobranças de falta, os torcedores estendem os braços para frente, começam a gritar em voz alta “putos, putos” (gays) para atrapalhar o time adversário.
Fizeram isso na Arena Castelão em volume tão alto que quase sempre sufocaram o nosso “Sou brasileiro, com muito orgulho…”. Ninguém se ofendeu no estádio, mas aqui e ali já começam a surgir patrulhas, tentando tornar um brado de torcedor em ofensa homofóbica. Não é um insulto dirigido a uma pessoa em particular, é uma gozação direcionada a todos os times.
Devagar com o andor.

Onde se meteu o envergonhado Fenômeno?

Faço minha a pergunta lançada ontem por alguém nas redes sociais: por onde andará Ronaldo Fenômeno, que se saiu com aquela presepada de “vergonha do Brasil” três dias antes da Copa? Diante do sucesso da competição nesta primeira fase, o que ele tem a dizer agora?

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CLUBE NA COPA – Giuseppe Tommaso – 22.06.2014 A Bola no Bola – Giuseppe Tommaso – 22.06.14

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