PLANETA COPA – Gerson Nogueira – 23.06.14

23 de junho de 2014 at 12:27 pm Deixe um comentário

Uma polêmica para agitar a Copa

É um jogo estranho, com características dramáticas. A depender dos primeiros minutos, pode ficar relativamente fácil, mas se o gol não sair logo a situação pode complicar. Felipão sabe que o momento é delicado e tratou de desviar o foco na entrevista de ontem à noite, no estádio Mané Garrincha.
Mais do que se aprofundar sobre as preocupações com Camarões, decidiu responder às insinuações de que o Brasil iria escolher seu adversário nas oitavas de final, pois jogará depois do confronto entre Holanda e Chile pelo Grupo B.
Diante da imprensa internacional ávida por novidades, o técnico brasileiro não mediu adjetivos. Afirmou que é burro ou mal intencionado quem tenta ver favorecimento ao Brasil na distribuição dos horários dos jogos decisivos dos grupos. Lembrou, com razão, que a escolha é da Fifa e aproveitou para pedir à imprensa que pare de endeusar A, B ou C. Segundo ele, o Chile já era apontado como um forte adversário desde o ano passado, mas só agora a crônica esportiva reconhece o fato.
De quebra, Felipão soltou farpas em direção ao rabugento técnico Louis Van Gaal, da Holanda, que é o principal crítico do novo critério adotado pela Fifa para a última rodada da primeira fase – até a Copa de 2010, os jogos do grupo B aconteciam depois dos do grupo A, ao contrário do que ocorre neste mundial.
Sem citar nomes, deu um jeito de deixar nas entrelinhas o alvo de sua resposta. Ao dizer que o Brasil vai jogar para ganhar, sem pensar no próximo adversário, Felipão lamentou que as afirmações (dos holandeses) coloquem em dúvida a seriedade do Brasil e menosprezem Camarões.
São situações próprias de momentos decisivos em grandes competições, mas Felipão resolveu não deixou barato. Percebeu, obviamente, que Van Gaal está querendo criar um factóide, talvez até para justificar antecipadamente uma provável eliminação mais à frente. Com habilidade, reverteu a história e fulminou a polêmica.
Nas internas, não duvido que tenha aproveitado as declarações do holandês para injetar incentivo extra no cardápio da Seleção Brasileira. Saiu no lucro.

E a Seleção põe esperanças na força de Hulk

Depois de ser barrado contra o México, Hulk volta ao time hoje. Felipão, como seu antecessor Mano Menezes, adora o parrudo atacante – que, em minha modesta opinião, é um zagueiro injustiçado. Ao confirmar a escalação, o técnico não escondia a satisfação e fez questão de tecer loas a Hulk. É um jogador que abre espaços e atrai marcação, liberando espaço para outros os atacantes da Seleção, avaliou Felipão.
Continuo a não ver todas essas virtudes no atacante. Joga duro, marca muito e dá pernadas sem nenhum pudor, mas é inconstante e erra muitos passes. Contra a Croácia, foi peça absolutamente nula. Pegou poucas vezes na bola e dividiu com Paulinho a condição de peso morto do time.
Pode arrebentar diante da zaga de Camarões, fazer os gols necessários e ajudar a classificar o Brasil, mas não tem as qualidades que seus técnicos tanto apregoam, como a justificar a preferência por ele no ataque do escrete.
Quando uma Seleção Brasileira festeja o retorno de Hulk como grande trunfo é porque alguma coisa está fora de ordem.

Apesar do empate, lusos estão quase fora

Portugal parece disposto a repetir a trajetória funesta de outros grandes selecionados europeus nesta Copa do Mundo. Inglaterra e Espanha já estão eliminadas e a esquadra lusitana ficou a um passo disso ontem, ao empatar com os Estados Unidos na Arena da Amazônia por 2 a 2.
Com o time limitado que tem, o time de Paulo Bento depende desesperadamente de Cristiano Ronaldo. Melhor do mundo, CR7 pouco produziu nos dois jogos que disputou na Copa. Sucumbiu diante da firme vigilância dos alemães na estreia e se perdeu em meio à correria dos norte-americanos.
Sem a explosão física aliada à grande habilidade, dotes que lhe garantiram fama e reconhecimento, Cristiano nem sequer assusta os adversários. No máximo, é cercado com respeito, mas não imprime a sequência de dribles e passes que desmantela sistemas defensivos.
Os problemas físicos se manifestam desde a decisão da Liga dos Campeões, quando teve participação discretíssima no confronto com o Atlético de Madri. Na Copa, sob as altas temperaturas brasileiras, seu rendimento foi ainda mais pífio.
Num espasmo, arranjou espaço pelo lado direito e cruzou com perfeição no minuto final para o gol de empate. Manteve a chama acesa, mas na realidade Portugal depende de um verdadeiro milagre para ir à próxima fase. Terá que vencer Gana por goleada (cinco gols de diferença) e ainda torcer para que Estados Unidos e Alemanha não empatem no outro jogo.

Tio Sam, quem diria, está chegando

Dono da maior torcida estrangeira presente à Copa, os Estados Unidos têm honrado as expectativas de seus adeptos. Com mais da metade da Arena da Amazônia ocupada pelos ianques, o time se empolgou e quase derrotou Portugal. Sofreu o primeiro gol logo aos 5 minutos, mas perseverou e conseguiu a virada num lance de Dempsey que lembrou aquele célebre gol de Renato Gaúcho, então no Fluminense, contra o Flamengo numa decisão de campeonato carioca. A barriga às vezes pode ajudar e o americano tratou de empurrar a bola para as redes.
Apesar do vacilo de marcação no finalzinho e da frustração gerada pelo gol português, o time de Klinsmann conseguiu um belíssimo resultado. Com quatro pontos acumulados, só perde a classificação numa improvável combinação de resultados. Mesmo se perder para a Alemanha ainda pode avançar na competição.

Quando o craque pode mudar a história

Quando Messi acertou aquele chutaço de fora da área, metendo uma bola de curva, quase ninguém mais esperava que a Argentina escapasse de um tropeço histórico diante do Irã. Mas quem tem um craque do nível de La Pulga sempre pode ter esperanças.
Tudo aconteceu numa fração de segundos. Um volante iraniano perdeu uma bola boba na intermediária e, na sequência, o passe chegou a Messi pelo lado direito do ataque, junto à linha lateral. Ele controlou a bola, puxou de lado, venceu um marcador e quando se aproximou da meia-lua disparou em direção ao gol. Com precisão, nem pra mais nem pra menos. No jeito. Como deve ser.
A Argentina levava um incrível sufoco e quase levou gol. O time não tem nenhum encanto extra, movimenta-se com muita lentidão e seu ataque não se define entre cruzamentos e tabelinhas, mas que ninguém duvide: com Messi em campo, tudo é possível. Até mesmo o título mundial.

Uma batalha que Ronaldo negligenciou

Em 2006, na Alemanha, vi Ronaldo Fenômeno arrastar-se nos jogos do Brasil. Acima do peso, pouco treinava. Em campo, evidenciava um certo enfado com a Copa e não fez todos os gols que poderia ter feito. Miroslav Klose, o atacante polonês naturalizado alemão, corria por fora, aproximando-se na batalha pela artilharia dos mundiais. Sem ser espetacular ou brilhante, fez todos os gols que podia e agora já está igualado ao brasileiro com 15 gols. Curiosamente, Ronaldo fez seu 15º gol contra Gana, mesmo time que sofreu o 15º de Klose, sábado, na Arena Fortaleza.
Pela determinação que demonstra, Klose tem tudo para ultrapassar Ronaldo ainda neste Mundial. Terá chances para isso, embora não seja o titular do time de Joachim Low. Carrega, porém, a persistência cega dos germânicos. Sabe que logo terá em seus calcanhares um garoto igualmente ambicioso. Thomas Muller, aos 24 anos, já acumula oito gols e terá esta e pelo menos mais duas Copas para superar aos dois líderes atuais.

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