Coluna do Gerson Nogueira – 31.08.14

31 de agosto de 2014 at 12:52 pm Deixe um comentário

Um monstro a ser abatido

 

Pode acabar não dando em nada, como tantos outros abusos cometidos neste país tão desigual. Pode mesmo cair no esquecimento geral a partir da próxima semana quando a poeira baixar. Independentemente de tudo isso, porém, há um personagem que se ergue acima de todos: o goleiro Aranha, do Santos, pela demonstração de plena consciência cidadã ao se sentir insultado por um grupo de torcedores gremistas, na última quinta-feira à noite, em Porto Alegre.

Sua capacidade de indignação, tão em desuso entre cidadãos brasileiros de hoje e sempre, é um marco. O episódio vergonhoso pode até ficar para trás, ajudado pela habitual ausência de vergonha e certeza de impunidade, mas Aranha simboliza a coragem de defender o direito à igualdade em todos os níveis, inclusive raciais. Não é pouca coisa.

Enfático nas denúncias ao árbitro sobre os xingamentos, sem ser atendido, o goleiro abriu os braços em desespero. Impotente para silenciar seus agressores, correu em direção aos cinegrafistas pedindo que registrassem a deprimente cena de baixeza humana. Poucos o atenderam. Ainda assim, não recuou.

Ao final da partida, foi firme na descrição do episódio ocorrido minutos antes, lamentando que o futebol – uma manifestação popular por excelência – ainda permita que homens sejam feridos tão covardemente por seus semelhantes.

Na madrugada fria de Porto Alegre, o jogador foi registrar o boletim de ocorrência e reafirmou as denúncias. Disse, inclusive, que as hostilidades extrapolam o campo futebolístico. Referia-se ao fato de que as pessoas repetiam os xingamentos odiosos mesmo depois da partida, quando ele passou perto dos torcedores.  

Tem toda razão. Agressões racistas não estão vinculadas apenas ao futebol. Mesmo quando acontecem em estádios, durante um jogo, não significa que ocorram em função dos acontecimentos de campo. Têm a ver com questões bem mais profundas, como a crônica dificuldade de conviver com as diferenças.

O Brasil se reencontrou com as liberdades democráticas há quase três décadas, mas os efeitos nocivos da era de exceção seguem a nos atormentar. Um dos sintomas óbvios é a intolerância, que se revela nos insultos a Aranha; nos ataques sistemáticos aos moradores de rua; na discriminação às minorias e aos pobres; nos palavrões dirigidos à presidente da República durante a Copa do Mundo.

Diante dessas evidências, a sociedade brasileira precisa se posicionar e buscar forças para enfrentar o monstro, que é tão mais letal num país rico em desigualdades como o nosso.  

 

 

A parceria que joga contra o futebol

 

Li no Facebook um desabafo esclarecedor do zagueiro Paulo André, ex-Corinthians e um dos líderes do movimento que congrega jogadores de futebol. Relata uma reunião com diretores da Rede Globo, que “fazendo o papel da CBF recebeu o Bom Senso para ‘discutir’ os problemas do futebol brasileiro”. Segundo ele, a empresa serve de escudo à entidade “para distrair os interessados no tema, a defender única e exclusivamente seus próprios interesses”.

Paulo André analisa que a parceria Globo/CBF, “numa tática de intimidação, controla (financeiramente) seus 47 membros que ditam os rumos do futebol no Brasil – 20 clubes da série A e 27 Federações Estaduais – e joga no melhor estilo chinês, ‘bárbaros contra bárbaros’, ou seja, clubes versus jogadores versus torcedores, fazendo uma cortina de fumaça para desviar o foco da incompetência de uma e da real intenção da outra – a manutenção do poder”.

Arguto, o atleta nota que, ao se tornar “amigável mediadora”, os parceiros dispersam a confusão em “suas fronteiras” (mudança de calendário, horário dos jogos, democratização do estatuto da CBF, fortalecimento da marca dos clubes, divisão mais justa dos direitos de transmissão, medidas que visem o aumento da torcida nos estádios, fair-play financeiro etc.) para que os “invasores” – clubes, atletas, torcedores, novas ideias – se “matem” em um impossível acordo entre as partes.

“Assim como o futebol praticado atualmente em nosso país, esses dirigentes apostam alto na retranca e seguram o jogo para conquistar a manutenção do modelo atual, apesar de comprovadamente fracassado”, observa Paulo André.

Sugere um amplo debate para discutir a reforma da legislação e da regulamentação do esporte nacional. “Para tanto, é necessário dar voz à coletividade, aos principais atores – atletas, torcedores, técnicos, cientistas, estudiosos, clubes, CBF e a própria TV, mas esta última não como mediadora e sim na importante posição de detentora dos direitos de transmissão”, recomenda.

E fecha com um recado definitivo: “Defender o esporte, fortalecer o campeonato e a marca dos clubes e oferecer o um produto melhor e mais acessível a todos os consumidores/torcedores deveria ser o objetivo final da CBF”.

 

 

Decisão do STJD tumultua e confunde

 

As escaramuças de sexta-feira se transformam em tradição no STJD. O tribunal mais confuso do país parece tomado de um furor punitivo nas tardes de sexta, sempre disposto a decisões de impacto, que dias depois se transformam em nuvem de fumaça.

Desta vez, os alvos foram o Icasa na Série B e o Botafogo da Paraíba na Série C. Ambos foram excluídos das competições porque teriam entrado com recursos na Justiça comum antes de esgotadas as possibilidades na Justiça Desportiva.

Há controvérsias, porém. Os recursos foram encaminhados por torcedores, como já aconteceu com Corinthians, Flamengo, Palmeiras e Portuguesa, sem que nenhum desses clubes chegasse ao menos a ser julgado. O pior é que os processos de Icasa e Botafogo já teriam sido prescritos, o que torna a decisão do STJD ainda mais estapafúrdia.

Resta agora aguardar a decisão do Pleno do tribunal, que normalmente revoga decisões mais polêmicas. Até lá, contudo, as duas competições estarão prejudicadas pelas dúvidas quanto à situação dos clubes, o que de imediato afeta o comparecimento dos torcedores aos jogos. 

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