Coluna do Gerson Nogueira – 14.12.14

14 de dezembro de 2014 at 10:41 am Deixe um comentário

Nem tudo que reluz é ouro

O futebol é pródigo em exemplos de jogadores que surgem de repente como a mais nova sensação do nobre esporte bretão. As informações brotam, os elogios se multiplicam e todo mundo passa imediatamente a acompanhar com interesse o candidato a astro.

Salvo casos muito especiais, a maioria dessas revelações termina decepcionando. Seja pelo excesso de expectativa ou por absoluta falta de qualificação do atleta. O fato é que no afã de descobrir novos Pelés, Maradonas, Messis e Cristianos as pessoas costumam exagerar nos rapapés.

Qualquer drible mais inspirado ou gol caprichado já é razão suficiente para provocar uma torrente de louvações. Lembro que há algum tempo o atacante Keirrison despontou como a nova promessa de redenção do futebol brasileiro. Ledo engano.

Enganou por um tempo no Palmeiras e, graças a um empresário esperto, ganhou até oportunidade no Real Madri. Como era apenas um atacante comum, não foi adiante. De volta ao Brasil tenta manter a carreira no Coritiba, seu clube de origem, mas sem entusiasmar ninguém.

Veio do Sul também outro nome endeusado pela mídia esportiva, cotado para brilhar no futebol europeu. Leandro Damião despontou no Internacional, fez muitos gols no Campeonato Brasileiro e chegou à Seleção.

Fez um golaço de rabo-de-arraia contra a Argentina. O mundo parecia aos seus pés. Veio a Copa do Mundo e Damião foi esquecido. Negociado a peso de ouro com o Santos virou reserva de luxo na Vila Belmiro, entrando no time só de vez em quando.

Não é privilégio do futebol atual. Antes, lá pelos anos 80, alguns jogadores também eram extremamente badalados, porém sem frutificar quando a grande chance aparecia. O fenômeno Washington é um dos mais emblemáticos. Revelação do Guarani, o jogador tinha passada elegante e porte físico que lembrava o Rei. Em questão de meses passou a ser comparado ao próprio Atleta do Século. Foi o seu fim.

No Fluminense, havia Robertinho, ponteiro ciscador, que durante anos embalou o entusiasmo, colecionando adjetivos elogiosos da ruidosa imprensa esportiva carioca. O esforço foi em vão. Não emplacou e acabou desaparecendo.

Naquele tempo era mais relativamente mais fácil enganar, pois a carreira do jogador de futebol não era tão esmiuçada pela imprensa como hoje. Alguns conseguiam até fazer uma carreira mais longa, até que alguém finalmente descobrisse a fraude.

Mesmo com a profusão de meios e plataformas para analisar o desempenho de jogadores do mundo todo, ainda há espaço para algumas esparrelas. Paulinho, volante que virou sinônimo de meio-campista moderno no Corinthians de Tite. Ganhou todos os prêmios e atraiu o interesse do futebol inglês, onde acabaria vivendo sua derrocada.

Ainda foi chamado para a Seleção Brasileira, mas a Copa do Mundo revelou em cores vivas que os bons momentos de Paulinho no Corinthians foram apenas espasmos numa carreira inteiramente mediana, mais ou menos como a de Robinho.

Expoente da geração “meninos da Vila”, o ás das pedaladas viu seu futebol murchar na mesma proporção em que acumulava milhagem em camisas poderosas – Real Madri, Milan, Manchester City, Seleção Brasileira.

Alexandre Pato, apesar de todo o furor inicial, foi aos poucos descendo na escala até chegar ao estágio de hoje, quando seu futebol de lampejos é visto sob uma ótima mais realista e menos empolgada.

É claro que existem enganadores contumazes, cuja carreira improdutiva e bem remunerada desafia a lógica. Fernando Torres, o atacante que um dia encantou a Espanha, joga até hoje com a imagem de dez anos atrás. Recordista mundial de gols perdidos, sempre atuando por grandes esquadras – Chelsea, Liverpool, Milan. Prova viva de que no futebol é possível enganar (quase) todos por muito tempo.

Atenção redobrada sobre as arbitragens

Durante muitos anos a arbitragem brasileira foi alvo de desconfianças e acusações de picaretagem, mas não aparecia ninguém capaz de comprovar qualquer irregularidade. Isso durou até o dia em que a “máfia da Loteria Esportiva” foi desbaratada, na década de 1970, a partir de uma série corajosa de reportagens do então repórter Marcelo Rezende, da revista Placar.

Naquela ocasião, a arbitragem caiu do pedestal e passou a ser vista com outros olhos. Com o tempo, porém, as coisas foram se acomodando e uma boa geração de apitadores restituiu a confiança perdida.

A descoberta da “máfia do apito”, capitaneada por Edilson Pereira de Carvalho, em 2005, viria abrir uma nova fissura na imagem da arbitragem nacional. E com características novamente de vinculação com apostas criminosas.

Na última década, embora o Brasil tenha passado ao largo de investigações, a Fifa e a Interpol têm se empenhado em investigar esquemas fraudulentos envolvendo casas de apostas africanas e europeias. Suspeitas sobre alguns resultados da Copa de 2006 seriam posteriormente confirmadas.

Por aqui, a cisma sempre foi quanto a interesses diretos de clubes que disputam acesso ou rebaixamento. Quanto ao crime organizado, pouco se comenta e quase nada se faz para prevenir ou observar.

A mais nova iniciativa, por orientação da Fifa, é o fortalecimento da Corregedoria de Arbitragem da CBF. Um detalhado manual de procedimentos foi elaborado a fim de tentar inibir a ação de mafiosos junto a árbitros brasileiros.

A aceitação de presentes, mordomias e outros mimos é expressamente proibida, bem como a prática de apostas por parentes de árbitros. A punição para quem descumprir será severa e deve surtir bons resultados, mas a CBF deveria também aproveitar para investir mais na qualificação desses profissionais.

Estudos da própria Fifa comprovam que quanto mais preparado for o árbitro, inclusive do ponto de vista acadêmico, menor é a possibilidade de vir a ser enredado pelos esquemas de manipulação. De toda maneira, toda e qualquer providência para garantir a lisura do jogo é sempre bem-vinda.

Bola na Torre

Giuseppe Tommaso apresenta o programa deste domingo, com participações de Valmir Rodrigues, Fernando S. Castro e este escriba de Baião. Começa por volta de 00h15, depois do Pânico na Band.

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