Coluna do Gerson Nogueira – 14.04.15

14 de abril de 2015 at 11:37 am Deixe um comentário

Veias abertas da América

O Uruguai venceu o Brasil limpamente em 50. E cercou-se de algo que nenhuma droga pode dar: o entusiasmo. Em duas frases, o diagnóstico da Copa mais trágica de todas. Pertencem a um homem sábio, talvez um dos últimos sábios que passaram por esta nossa América Latina. Eduardo Galeano. Afirmou isso em entrevista ao repórter Elvídio Matos, da ESPN, ao analisar, 60 anos depois, a tragédia do Maracanazo.

Sorridente e emocionado, disse mais: “Depois da final, Obdúlio saiu do hotel e foi a um boteco beber uma cervejinha, passear. Ficou então impressionado com as pessoas chorando nas ruas do Rio. O que fiz a eles? Uma gente tão boa e eu fiz com que elas sofressem tanto. O pior é que ele ouvia as pessoas falando ‘Foi Obdúlio, foi Obdúlio…’. Então, a fúria que tinha reservado para o jogo contra o Brasil se transformou em constrangimento, desolação e tristeza”.

Avaliações sensíveis de um poeta-jornalista preocupado com sentimentos, amoroso com as pessoas. Galeano foi um mestre das palavras. Esgrimia verbos com invulgar carinho. Ouvi-lo era prazeroso, pelo tom de voz sereno e grave. Falava um português quase perfeito, emoldurado pelo forte sotaque espanhol. Ler seus escritos era puro deleite, pela clareza das ideias e a profundidade do conteúdo.

Uruguaio de nascimento, Galeano era cidadão do mundo. É claro um homem tão preocupado com os outros só poderia sólida formação esquerdista. Fui apresentado a Galeano quando já era um repórter e tentava diariamente melhorar meu texto, lendo o que de fato valia a pena.

Li alguns artigos dele n’O Pasquim e, a partir daí, aprendi a cultivar o hábito de ler seus livros, começando pelo seminal “As Veias Abertas da América Latina” (editora Codecri), lançado em 1971 e que me fez abrir os olhos para a subserviência política do nosso maltratado rincão. Anos depois, Hugo Chávez daria o livro de presente a Barack Obama, instigando-o a entender as históricas mazelas que castigam o povo das Américas.

Emendei depois com “Futebol ao Sol e à Sombra”, insuperável tratado crítico sobre esse esporte que tanto amamos. Apesar da modulação às vezes sombria, o livro desnuda a paixão que Galeano nutria pelo futebol e que fui aprendendo a confirmar em artigos e entrevistas.

Como fã de futebol, ele era apaixonado pelo Brasil. Histórias sobre as escaramuças, lendas e rivalidades (como a de Flamengo e Vasco) mereceram sua atenção. Como na incrível história de Arubinha, o homem que teria enterrado um sapo no estádio de S. Januário e lançado uma praga de 12 anos sobre o time da Colina. Coincidência ou não, o Vasco só venceria de novo depois de 11 anos.

Perseguido e censurado por várias ditaduras ao longo da vida, Galeano trabalhou como redator chefe do jornal “Marcha”, dirigiu o jornal “Época” e publicações da Universidade do Uruguai, de 1964 a 1973. Exilado em Buenos Aires, onde criou a revista “Crise”. Em 1976, continuou o exílio em Barcelona. Só retornou ao Uruguai em 1985, depois de restaurada a democracia.

Seus escritos eram fragmentados, assemelhando-se em economia a haicais, quase sempre no formato da crônica livre. Como jornalista, fazia da realidade sua fonte maior de inspiração, com talento suficiente para fazer disso grande literatura, como em “Memória do Fogo” e “Os Filhos dos Dias”, seu último lançamento no Brasil, de 2012.

Modestamente, dedico a ele a coluna de hoje pelo respeito e admiração, e acima de tudo pela fonte de inspiração que representou para a minha carreira. Ter Galeano como modelo é quase pavulagem de um escriba nascido no interior do mato.

Pela paixão inarredável pelo futebol e as claras convicções esquerdistas, de preocupação com os mais pobres e oposição às injustiças do mundo, sempre me senti próximo desse grande uruguaio, que morreu ontem, aos 74 anos.

Para fechar, uma frase inesquecível dele: “Há um só lugar onde ontem e hoje se encontram e se reconhecem e se abraçam. Esse lugar é amanhã”. Cabra bom. Vai fazer falta.

Escaramuças políticas ameaçam o Remo

Em campo, o Remo fez sua parte. Na cara e na coragem, conquistou a classificação jogando em Paragominas, local onde quase sempre fracassou nos últimos anos. Determinados, os jogadores superaram eventuais deficiências e garantiram a vitória.

Todo esse esforço pode ser sabotado pelas escaramuças políticas que movimentam os bastidores do clube. O presidente Pedro Minowa, que está no cargo há três meses, corre o risco de ser apeado do poder por força de denúncias encaminhadas ao Conselho Deliberativo.

É acusado de irregularidades administrativas, por ter supostamente assinado contratos lesivos ao clube sem a anuência de seus pares, nem a autorização do Condel. Minowa, em entrevista ao Bola de domingo, nega qualquer ilícito. Na matéria, voltou a falar da situação em que encontrou as finanças do clube – com apenas R$ 6,50 em caixa, segundo ele.

Entre as acusações e a defesa existem vários passos a serem dados, mas seria sensato que as muvucas políticas ficassem para mais tarde. O futebol, que determina o que é céu e o que é inferno no Remo, viverá uma semana decisiva.

Amanhã, o time vai a Curitiba brigar a classificação à próxima fase da Copa do Brasil contra o Atlético. Parada difícil, mas não impossível. No sábado, aí sim, um confronto de vida ou morte com o Papão pela semifinal da Copa Verde. Para ir à final, o Remo precisa vencer por 3 a 0 ou fazer 2 a 0 e disputar nos penais. Pedreira total.

Os dirigentes e grandes azulinos precisam entender que aualquer coisa que desvie o foco dessas missões em campo será extremamente negativa para o futuro do clube.

Uma tradição que não se altera

A recorrente hegemonia do Flamengo no mundo das arbitragens voltou a se manifestar domingo no clássico com o Vasco. Pelo menos dois jogadores rubro-negros deveriam ter sido expulsos por agressão a vascaínos. O lance mais escandaloso foi o pontapé no rosto de um meio-campista cruzmaltino ainda no primeiro tempo do jogo. Árbitro, a muito custo, deu amarelo.

Não esquecendo que, no ano passado, o Fla conquistou o título carioca com um gol em claro impedimento na final contra o Vasco. Nem Eurico Miranda, do alto de toda sua alegada matreirice, foi capaz de impedir que seu time fosse novamente garfado diante do maior rival.

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