Coluna do Gerson Nogueira – 30.04.15

30 de abril de 2015 at 3:47 pm Deixe um comentário

Muito mais que um jogo

Dez anos depois, o Remo chega à final de uma competição interestadual importante. A última vez em que isso ocorreu foi em 2005, no Campeonato Brasileiro da Série C. Na ocasião, participou de uma decisão em quadrangular que envolvia América-RN, Novo Hamburgo e Ipatinga, saindo vencedor no final.
Quando se passa uma década sem que uma agremiação centenária e de tanta tradição dispute o título de competição relevante surgem, naturalmente, alguns questionamentos. O que aconteceu nesse período? Por que o clube não se estruturou para buscar grandes vitórias e por que se acostumou com o jejum de títulos?
Uma explicação responde a todas essas perguntas. Ao longo de boa parte dessa década perdida o Remo mergulhou em gestões malfadadas e incompetentes, algumas até criminosas, sofrendo duramente as consequências disso.
Foi uma década de grandes prejuízos, pouquíssimos momentos para festas. O clube perdeu prestígio junto à elite do futebol brasileiro, ficou sem divisão e também sem dinheiro. Perdeu até o respeito das equipes emergentes dentro e fora do Pará. Só sobreviveu mesmo pela força de sua torcida, uma das mais apaixonadas do país.
Esse rápido inventário serve para ressaltar o extremo valor que a Copa Verde tem hoje para o Remo. Não apenas pelo simbolismo que envolve uma eventual conquista, mas pelo resgate da imagem do clube e da autoestima do torcedor.
O fato adicional de a vaga de finalista ter sido conquistada em cima do Papão é um combustível a mais a empolgar os azulinos. Vale sempre lembrar que os 10 anos de fila adquirem uma carga ainda mais negativa se comparados à caminhada do tradicional rival, que neste período se impôs, conquistou mais títulos e se manteve nas divisões nacionais, apesar de alguns erros no percurso.
Vencer a Copa Verde é para os azulinos um passo fundamental para deixar para trás a era das vacas magras. Pelo menos é assim que a torcida vê as coisas. Os dirigentes nem sempre mostraram grande entusiasmo. Houve um deles que afirmou, logo depois da derrota para o Papão no primeiro jogo da semifinal, que o torneio não tinha maior importância e não era prioridade. Certamente mudou de ideia nos últimos dias diante do entusiasmo que toma conta de todos no clube.

Disciplina tática e comprometimento

No Re-Pa que decidiu o returno do Parazão, Cacaio manteve a ofensividade do time escalando dois meias e dois atacantes. Em alguns momentos da partida, chegou a ter cinco jogadores na frente – um verdadeiro recorde nestes tempos de devoção à cautela tática. O próprio Papão entrou com três volantes e apenas um armador (Carlinhos), só alterando sua configuração ofensiva quando teve que correr em busca do empate.
Desde que Cacaio assumiu o comando, o Remo passou a jogar sempre com dois volantes, normalmente Dadá e Ilaílson. Contra o Papão, usou o jovem Ameixa e deslocou Ilaílson para a lateral-direita. Para hoje, não poderá contar com Dadá, suspenso. Com isso, o setor de marcação deverá ter Ilaílson e Ameixa, com Ratinho e Eduardo Ramos na armação. Para o ataque, o mais provável é que Bismarck seja mesmo o companheiro de Rafael Paty.
O Remo vem jogando assim há menos de um mês e está invicto desde o clássico que abriu a semifinal da Copa Verde. Os jogadores assimilaram rapidamente as orientações de Cacaio. Os resultados (mesmo aqueles improváveis) aconteceram e reforçaram o elo. Além da obediência ao esquema traçado, todos se empenham na marcação. O principal diferencial do time tem sido esse comprometimento. Não há de ser diferente hoje à noite contra o Cuiabá.

Camisa 10: a prioridade no Papão

A dupla eliminação, no Parazão e na Copa Verde, só teve um aspecto a ser comemorado na Curuzu: antecipar os preparativos para o Brasileiro da Série B. O time ficou livre para treinar e pensar exclusivamente na competição mais importante da temporada.
Como consequência natural do insucesso nas duas competições, o elenco foi submetido a uma rigorosa avaliação individual de rendimento. Atletas foram desligados e outros ainda poderão sair. Até o momento, nenhuma surpresa na lista. As dispensas têm seguido um critério justo: só fica quem mostrou qualidades.
Por outro lado, cresce a preocupação com os reforços. Os setores de defesa e marcação têm sido mais contemplados até aqui, com Gualberto, João Lucas, Fahel e Gilson.
Para o ataque, por enquanto, nenhum novo nome garantido. E para cuidar da criação a equipe continua a depender de Rogerinho e Carlinhos. Ambos, ao longo deste primeiro quadrimestre, não deram a confiabilidade necessária ao setor. Dado Cavalcanti continua precisando de um bom camisa 10 para encarar a maratona da Série B.

O adeus do homem que calou o Maraca

Não foi só Obdúlio Varela. Outro negro também fez o Maracanã silenciar. Valmir Louruz vai ficar com o nome eternizado no futebol pela façanha de calar quase 100 mil alvinegros no Maracanã, em 1999, por ocasião da final da Copa do Brasil entre Botafogo e Juventude.
Depois de vencer em Caxias do Sul, ele foi ao Rio disposto a segurar o empate. E fez isso com rara competência. Bebeto, Rodrigo e outros bons atacantes do Fogão não conseguiram furar o bloqueio montado por Louruz e o Juventude festejou o título no então “maior do mundo”.
No futebol paraense, Louruz treinou a Tuna (1996) e o Papão (1997). Dirigiu outros times de porte médio em todo o Brasil e trabalhou ainda no futebol árabe e no Japão. Vivia em Porto Alegre, era discreto e jamais teve grandes preocupações com marketing. Morreu ontem, aos 71 anos.

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