Coluna do Gerson Nogueira – 23.08.15

23 de agosto de 2015 at 1:55 pm Deixe um comentário

E o Brasil redescobre o Pará

A Copa do Brasil tem, entre outras virtudes, a de clarear as coisas quanto ao verdadeiro poder de fogo dos clubes brasileiros. A rodada desta semana expôs, em toda a sua intensidade, o surpreendente equilíbrio de forças entre equipes de divisões diferentes. O todo-poderoso São Paulo caiu do cavalo frente ao Ceará, lanterna da Série B. O Fluminense, integrante do G4 da Série A, passou maus pedaços e poderia até ter perdido para o Papão aqui do Norte se o futebol fosse mais justo. Venceu nos acréscimos, depois de tomar um sufoco nos 15 minutos finais.
É claro que o formato da competição privilegia a emoção e acaba dando lugar muitas vezes ao inusitado, a partir de um mau momento de uma equipe mais qualificada. No sistema de pontos corridos dos Brasileiros das Séries A e B, inexiste a possibilidade de surpresas na classificação final. Copas, ao contrário, sobrevivem justamente da sempre presente hipótese do inesperado.
Como nada tem a ver com isso, o Papão mostrou que tem condições de se entestar com um grande da Primeira Divisão sem precisar se retrancar ou apelar para o jogo mais ríspido. Atuou no mesmo nível do adversário e, em várias ocasiões, foi nitidamente superior. Por tudo isso, a rápida visita ao Rio de Janeiro pode se tornar extremamente lucrativa para o time e para um de seus mais importantes jogadores.
Mesmo com a derrota diante do Flu por 2 a 1, o Papão saiu engrandecido. Sim, parece estranho, afinal perder nunca é bom. Ocorre que, pelo sistema de disputa da Copa do Brasil, marcar gol em terreno inimigo representa um bom negócio. Tanto que na partida de volta, em Belém, um placar simples de 1 a 0 servirá para classificar os bicolores.
Acima de tudo, o bom jogo feito pelo Papão garantiu repercussão amplamente positiva nos meios de comunicação de Rio e São Paulo, jogando luz sobre o futebol que se pratica na parte de cima do mapa. Pode ser uma atenção passageira, mas ainda assim representa muito para quem vive normalmente segregado do resto do país.
Permitiu, inclusive, que algumas vozes de expressão voltassem a falar na bizarra discriminação que Belém sofreu por ocasião da Copa do Mundo de 2014, alijada de sediar jogos para que cidades sem qualquer tradição boleira pudessem participar do banquete.
Cuiabá e Manaus, para ficar só em dois casos, não tinham como vencer a capital paraense caso a seleção cumprisse normas claras e lógicas. Como dependeu dos humore$ de Ricardo Teixeira e sua gangue, a candidatura de Belém nem sequer foi considerada a sério.
Mas, além das loas ao Papão, a súbita descoberta do futebol do Pará levou ao reconhecimento de Pikachu, subitamente elevado à condição de astro da semana em programas de esportes da TV e manifestações na internet. Foi preciso que o camisa 2 bicolor mostrasse sua habilidade na cobrança de faltas para que obtivesse aplausos gerais e até um olhar mais atento por parte dos responsáveis pela Seleção Brasileira que vai disputar os Jogos Olímpicos do Rio.
Um telefonema de Gilmar Rinaldi a Charles Guerreiro, na tarde de sexta-feira, deu a entender que Pikachu pela primeira vez é considerado como possível nome para o escrete olímpico. Por aqui todos já sabiam de seus recursos como ala ofensivo, mas o Brasil só costuma ver o óbvio quando este passeia sob seus olhos em gramados cariocas e paulistas. Que Pikachu tenha a chance que já faz por merecer há pelo menos dois anos.

No templo da Enciclopédia do Futebol

No universo da Série B, jogar fora de casa significa iminência de derrota. Felizes aqueles que subvertem essa regra não escrita. Podem não alcançar o reino dos céus, mas é certo que disparam na tabela de classificação. O Papão tem a chance de cumprir esse rito, hoje pela manhã, no estádio Nilton Santos, frente ao vice-líder Botafogo.
Quis o destino que pela primeira vez nesta Série B o estádio esteja lotado de botafoguenses, ávidos por vibrar e celebrar com o time de Ricardo Gomes, que demonstra ter recuperado o apetite por vitórias depois de uma curva descendente que custou o emprego de Renê Simões.
O Papão chega credenciado pela atuação contra o Fluminense. A maneira destemida como se exibiu na quinta-feira faz com que seja olhado com respeito. Pelas palavras do técnico Dado Cavalcanti é provável que o meio-de-campo seja mantido com Capanema, Augusto Recife e Jonathan, com Fahel ficando no banco.
A única mudança no setor seria a inclusão de Valdívia, substituindo ao improdutivo Carlinhos com a missão de injetar dinamismo e criatividade ao setor. O ataque segue com Leandro Cearense e Aylon, dupla mais entrosada do Papão nesta Série B. Na defesa, Pablo é o mais provável substituto de Gualberto.
O teste de fogo no Maracanã mostrou que a equipe dispõe daquela força interior necessária para não se intimidar diante de adversários aparentemente superiores. No caso do Botafogo, nem há uma vantagem acentuada, pois tecnicamente os times se equivalem. O que pode fazer a diferença é o apoio da apaixonada torcida alvinegra, que parece disposta a dividir com o time as responsabilidades pelo acesso.

O clamor de Jóbson por justiça

Durante a semana, o atacante Jóbson esteve no Botafogo tratando de questões burocráticas e aproveitou para clamar de novo por justiça, aquela instância a que todos os homens recorrem quando se sentem prejudicados.
E se há alguém que pode bater no peito e reivindicar este é Jóbson, punido pelo tribunal da Fifa com quatro longos anos de suspensão, pena tão rara quanto draconiana, capaz de sepultar a carreira de qualquer futebolista.
Por mais que o atleta paraense tenha cometido irregularidades – e, de fato, cometeu – nada justifica uma sanção tão inclemente. De origem humilde, negro e com pouca instrução, Jóbson é alvo fácil para discriminações.
Tem direito, como todo homem, a uma nova oportunidade.

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