Coluna do Gerson Nogueira – 27.09.15

27 de setembro de 2015 at 10:52 am Deixe um comentário

O sol por testemunha

Diante das constantes críticas ao famigerado horário das 11h, inventado inicialmente como alternativa às manifestações de revoltados diversos em São Paulo, a CBF se saiu com uma tirada bem ao seu estilo. Culpou os clubes pela deficiência de preparo dos atletas, como se o horário e a temperatura permitissem que a medicina operasse milagres para preservar a integridade física dos jogadores. Em outras palavras, se esquivou da responsabilidade.
O fato é que a mudança de horário, experimentada (e até aplaudida) em algumas capitais do Sudeste e Centro-Oeste, só interessa mesmo a dirigentes gananciosos e à emissora detentora dos direitos de transmissão, a exemplo do que já ocorre com outro horário tenebroso, o das 22h. Claro que cartolas e executivos acham o horário maravilhoso porque não são obrigados a se esfalfar em campo, sob sol senegalês, arriscando até a vida.
A alegação de que jogando às 11h alguns clubes obtêm arrecadações melhores não justifica a imposição de tal flagelo aos atletas, profissionais que dependem de boa forma atlética e adequadas condições fisiológicas para oferecer rendimento de alto nível.
Em recente conversa, quando compareceu ao programa Bola na Torre na RBATV, o goleiro Emerson (PSC) contou que de suas agruras durante o jogo com o Botafogo, na abertura do returno da Série B, disputado sob sol a pino no estádio Nilton Santos, no Rio.
Segundo ele, já na metade do primeiro tempo teve que molhar os pés com água gelada para resistir à insolação. Em seguida, precisou de atendimento médico em três momentos por passar mal enquanto a bola rolava. Nem as pausas para hidratação servem para restabelecer o condicionamento físico dos jogadores.
Lembro que dentre as reivindicações elencadas em documento do Bom Senso F. C., no final do ano passado, grande parte dizia respeito à integridade física dos profissionais do futebol. O grupo, que reúne atletas e ex-atletas, chamava atenção para a realidade do esporte no país, alertando para os riscos de um calendário abusivo, que castiga o artista do espetáculo e contribui para encurtar sua carreira.
Nada parece ter sido levado em consideração. Quando o futebol atravessa momento crítico no Brasil, com crescente desinteresse do torcedor exposto em pesquisas de opinião e no baixo comparecimento aos estádios, CBF e clubes decidiram por em prática a ideia de jerico dos jogos às 11h, cujo término ocorre por volta de 13h, em horário de sol inclemente, exceto nos períodos de frio em algumas cidades do Sul e Sudeste.
Desunidos e fragilizados como segmento profissional, os atletas pouco podem fazer para mudar essa realidade. O brado deve partir de vozes que realmente se preocupem com o futuro do futebol por aqui, na esperança de que venha a ser atendido.
Não custa lembrar que a velha desconfiança de que CBF e seus sócios estavam matando a galinha dos ovos de ouro se tornou realidade nua e crua durante a última Copa do Mundo.
Depois de tanto insistir com fórmulas absurdas de disputa, calendários confusos e espichados, a entidade que manda e desmanda juntou-se aos cúmplices de sempre para sufocar as chances de soerguimento do futebol através dos clubes, células fundamentais na formação de craques.
Quando aparecem aqui e ali alguns futebolistas de boa técnica, como Lucas Lima e Gabriel de Jesus, o peso da estrutura corrompida conspira para que essas revelações se tornem cada vez mais raras.
Os ingênuos podem pensar que não, mas abusos como o futebol ao sol do meio-dia integram o cardápio de maldades que dona CBF atira sobre o esporte (ainda) mais popular do país. Infelizmente, é provável que esse absurdo só venha a ser corrigido diante de uma tragédia ou ameaça de punição por parte da Fifa.

Sobre a reconstrução do Remo

Recebo e transcrevo na íntegra atenciosa mensagem de Ronaldo Passarinho, grande benemérito do Clube do Remo. “Não costumo fazer pedido de divulgação, mas queria lhe solicitar que falasse de alguns nomes que estão ajudando a enfrentar o momento grave e de renovação no CR. A simbiose entre velhos e novos remistas pode alavancar o clube, para voltar ao seu passado glorioso. Refiro-me ao trabalho incansável de André Cavalcante, Ângelo Carrascosa, Milton Campos, Fábio Bentes, coronel Bahia e muitos outros, que, sob a direção de Manoel Ribeiro, aconselhado pela tradição de Ubirajara Salgado, Moacyr Gomes, Jô Ferreira e outros, dão uma perspectiva excelente para o futuro. Entendo que a citação dos nomes referidos pode incentivar muitos outros a participarem dessa caminhada”.

Bola na Torre

O programa de hoje terá o amigo Edson Matoso como convidado. Ícone do bom jornalismo esportivo, Matoso participará dos debates sobre a rodada do final de semana envolvendo os representantes paraenses. Guilherme Guerreiro comanda a atração, ao lado de Giuseppe Tommaso e deste escriba de Baião. O Bola na Torre começa logo depois do Pânico, por volta de 00h20.

A moda retrô invade a Seleção

A convocação de Ricardo Oliveira, 35 anos, para suprir o corte de Roberto Firmino confirma a tendência de volta ao passado na Seleção, inaugurada por Dunga desde que convocou Robinho e Kaká. A onda retrô não pode ser saudada por ninguém de bom senso porque vai na contramão dos rumos do futebol atual, cada vez mais entregue a jovens e talentosos boleiros nos países europeus, africanos e até entre os vizinhos sul-americanos.
Dunga parece ter se dado conta de que não há muito tempo para prestigiar jovens atletas e resolveu apostar na velha guarda. Jogador de razoável qualidade, Oliveira desfruta de súbito brilho no Santos. Não é garantia de excelência, pois seu bom momento acontece em campeonato de baixíssimo nível técnico.
Mesmo claudicante nas últimas passagens pelo escrete, o são-paulino Alexandre Pato talvez fosse merecedor de lembrança. Jovem ainda, pode ser trabalhado para a Copa de 2018, enquanto Oliveira já está na fase crepuscular da carreira.

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