Coluna do Gerson Nogueira – 23.10.15

23 de outubro de 2015 at 3:29 pm Deixe um comentário

A esperança renasce

Até por força do hábito, boa parte dos torcedores, dirigentes e da crônica esportiva segue com aquele discurso choroso quanto à realidade do futebol paraense. Não duvido que haja sinceridade nesse posicionamento. A derrocada dos clubes, o endividamento crescente e a falta de uma política de modernização das divisões de base estimulam em grande medida a descrença em dias melhores. Por outro lado, é preciso ver que há motivos para crer em dias melhores.
Por um desses milagres que o futebol gosta de proporcionar, a dupla Re-Pa vive momentos auspiciosos dentro de campo. Concentro a análise na situação dos velhos rivais porque o futebol do Pará é, essencialmente, mantido e bancado por eles. Quando estão em alta, todos ganham e se beneficiam. Quando despencam, todos sofrem.
Na Série B, o Papão empreende campanha elogiável, que já lhe garantiu permanência na segunda mais importante divisão brasileira em 2016. Caso o time reaja e a sorte ajude, pode até alcançar o acesso à Série A, sonho considerado quase impossível quando o campeonato começou.
O investimento do Papão é alto para os padrões regionais, mas bem abaixo do que gastam Botafogo, Bahia, Santa Cruz e Vitória para disputar a mesma competição. Ainda assim, com méritos demonstrados em campo, conseguiu ainda no começo do returno afastar qualquer risco de rebaixamento, mantendo até as últimas rodadas esperanças legítimas de subir.
Tudo isso só é possível pela nova mentalidade reinante na Curuzu. Controlado hoje por um grupo rejuvenescido de dirigentes, o Papão se moderniza e implanta conceitos de gestão antes deixados de lado. Graças a isso, os avanços se materializam no sucesso do programa de sócio torcedor (Sócio Bicolor, com mais de 17 mil cadastrados) e na constante troca de ideias em prol da instituição.
Foi-se o tempo em que bicheiros e aventureiros em geral faziam e aconteciam no clube, impondo seus próprios métodos e criando verdadeiros feudos internos. Hoje, o velho estádio Leônidas Castro passa por obras de revitalização e deve dispor até o fim do ano de um moderno hotel para abrigar seus jogadores e clubes visitantes.
O Remo saiu do limbo ao conquistar, no domingo passado, o acesso à Série C. Para isso, precisou de esforço geral de seus dirigentes, comissão técnica, jogadores e torcida. Uma força-tarefa que impulsionou o time à conquista tão almejada nos últimos anos.
Para se entender a real importância do feito, vale recordar os martírios enfrentados pelo clube nas últimas temporadas. Em consequência de gestões desastrosas a partir de 2006, o Remo foi diminuindo de tamanho no campo esportivo e em termos patrimoniais. Perdeu a sede campestre em leilão mal explicado e quase fica sem o estádio Evandro Almeida, alvo da cobiça do mercado imobiliário e oferecido a preço vil por um presidente mal-intencionado.
No começo do ano, o clube voltou a balançar perigosamente, ameaçado de perda da área do Carrossel pela pressão dos donos de sua dívida trabalhista. Correu ainda mais perigos ao decidir em sua primeira eleição direta entre candidatos pouco habilitados para o desafio de conduzir o clube a dias melhores.
Em esforço conjunto de velhos e novos dirigentes, o clube conseguiu se salvar com resultados improváveis em campo. Contra todas as previsões, conquistou o bicampeonato estadual e foi vice-campeão da Copa Verde, além de se garantir na Copa do Brasil e na Série C 2016.
Botecos, festas, feijoadas, bazares, pedágios e campanhas encetadas pela torcida contribuíram para diminuir os custos, ajudando o Remo a ter de novo um calendário preenchido para a próxima temporada. Cenário que pode ficar ainda melhor para os azulinos com a conquista, possível, do título brasileiro da Quarta Divisão.
O tema é amplo e rico, merecendo futuras abordagens, mas este recado visa abrir discussão. Muitas vezes a fartura e a bem-aventurança batem à porta e não são atendidas. É inegável que nossos grandes clubes estão renascendo, por razões diversas, algumas até casuais. Mais do que nunca precisam de apoio para resistir às forças do atraso, que nunca desistem e estão sempre à espreita.

Preocupante e desalentador mundo novo

A demissão de 34 profissionais da ESPN Brasil, anunciada ontem, joga luz sobre a difícil realidade do jornalismo esportivo no país, às voltas com desafios gigantes para permanecer influente e de pé. O avassalador crescimento da comunicação on-line não se faz acompanhar de sustentação financeira para manter equipes, investimentos tecnológicos e coberturas cada vez mais caras.
Quando uma redação qualificada como a da ESPN faz cortes na própria carne, todos temos a lamentar, pois todos perdemos – profissionais da área e público consumidor. Há quatro meses, o Portal Terra já havia feito várias demissões. Outros veículos também reduzem seus quadros.
Cobrir esportes no Brasil sempre exigiu muita grana até porque, com exceção das redes de TV aberta, os grandes anunciantes a cada dia se mostram mais refratários a estabelecer parcerias. No mundo inteiro, o mercado jornalístico sofre com a chegada de um novo tempo, delimitada pelo jornalismo digital, sem que se tenha saída a curto ou médio prazo.

Um exemplo que interessa a todos

À saída do jogo contra o Ceará, na terça à noite, o goleiro Jefferson, do Botafogo, contrariou a manada e confessou ter cometido o pênalti que provocou a derrota alvinegra. Diante de uma pergunta que levantava a bola para que negasse a penalidade, o arqueiro não se abalou e disse que a falta existiu e que havia derrubado o atacante cearense. Com a simplicidade desconcertante dos verdadeiros atletas. Tinha que ser do Botafogo.
A título de comparação, lembro que, há uns dois anos, o goleiro Felipe, do Flamengo, cravou uma resposta bem diferente dessa. Ao final de um jogo decidido em lance duvidoso contra o Vasco, ele afirmou que vencer com gol roubado é mais gostoso. Arrogante, queria obviamente fazer média com o torcedor mais raso, mas debochava ali de um dos princípios mais sagrados do desporto.

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