Coluna do Gerson Nogueira – 11.02.16

11 de fevereiro de 2016 at 3:18 pm Deixe um comentário

Crise de credibilidade

Os jornais destacaram nos últimos dias a queda generalizada dos investimentos em futebol no Brasil, a começar pela parte que diz respeito aos grandes patrocinadores. A situação afeta os clubes, grande parte deles vulnerável ao ataque da China sobre seus jogadores, mas golpeou ainda mais os arraiais da CBF, que só nos últimos quatro meses perdeu três parceiros masters.
De imediato, analistas que costumam pensar pela cartilha dos neoliberais da The Economist, aquela revista que vive de rebaixar o Brasil e esquecer os muitos problemas dos EUA e da velha Europa, se contentaram com a explicação que liga a escassez de patrocínio à tal crise brasileira.
Com um mínimo de atenção e análise é possível ver um pouco além do argumento predileto da midiazona brasileira para todos os problemas surgidos de 2015 para cá.
Na verdade, a crise é do futebol como negócio. O problema é antigo, mas explodiu de vez com a devassa que levou de roldão a Fifa, com as labaredas do escândalo atingindo em cheio dezenas de dirigentes mantidos a peso de ouro e chegando aos limites da bandalheira orquestrada no Brasil via CBF.
A gigantesca crise de confiança que assola o esporte mais popular do mundo só não abala as grandes instituições, como os clubes da Liga Inglesa, uma meia dúzia de times da Espanha e uns dois ou três da Itália.
No que diz respeito ao Brasil, o buraco é bem mais embaixo.
Além das vicissitudes naturais que atropelam a vida dos clubes por aqui, o escândalo apurado pela Justiça norte-americana atingiu em cheio os pilares que sustentavam a trôpega estrutura de negócios do futebol no Brasil.
A tal estrutura sempre se baseou nos contratos de transmissão de jogos pela televisão, na exploração das placas de publicidade nos estádios e nos patrocínios envolvendo grandes fabricantes de material esportivo e artigos de algum modo relacionados ao esporte.
Nada haveria de errado se essa ciranda beneficiasse a todos indistintamente, respeitando o princípio secular de que um negócio só é bom quando todos estão satisfeitos. Ocorre que no Brasil sempre há alguém ganhando um pouco mais que outros, nem sempre por méritos ou competência, mas por pura esperteza ou pilantragem.
Eis que, aberta a caixa de Pandora do futebol, a podridão se revelou e alguns dos sultões da bola no Brasil foram imediatamente engaiolados pelo FBI, começando pelo notório José Maria Marin e o outro não menos conhecido J. Háwilla, sócio da CBF desde os primórdios da gestão Ricardo Teixeira.
Háwilla abriu caminho no rico filão do futebol comercializando placas nos estádios e cresceu tanto que se tornou parceiro inseparável de reluzentes nomes, incluindo a poderosa emissora que detém os direitos de transmissão dos principais torneios e o poder absoluto de mandar prender e soltar no pobre esporte bretão que ainda praticamos.
É justo dizer também que os dramas da CBF, pelos quais o atual presidente (e sucessor de Marin) viu-se obrigado a se licenciar do cargo para escapar das garras aduncas da polícia federal americana, não respondem por todos os males financeiros do nosso futebol.
Até o principal craque do país está enrolado em denúncias de sonegação fiscal, respondendo aqui e na Espanha, o que não ajuda em nada a melhorar a imagem de uma atividade já suficientemente marcada por suspeitas e bandalheiras em série.
Neymar, apesar da excelente fase vivida em campo, desponta como um garoto-propaganda às avessas, sangrando ainda mais a tisnada imagem do esporte no Brasil. Ontem, a Justiça Federal rejeitou recurso dos advogados do jogador e manteve as multas determinadas pela Receita, no valor de R$ 460 mil.
Não é mera coincidência que quase todos os grandes anunciantes estejam pulando fora da brincadeira. Se pode eventualmente enfraquecer o futebol, pode também ajudar a moralizar a coisa toda, mesmo que por vias transversas.

Clubes paraenses se adaptam à realidade

Como as dificuldades se estendem por todos os clubes, a dupla Re-Pa não fica imune a isso. O Papão decidiu que não irá mais contratar ninguém, além dos 18 atletas que trouxe para o começo da temporada. Mesmo a lateral-esquerda, onde Raí está sem suplente, ficou de ser atendida eventualmente por Pablo, que sempre quebra galhos por ali. A ideia é não aumentar despesas a essa altura da temporada.
A medida deve ser aplaudida por todos, inclusive pelos torcedores, cuja ânsia por grandes times acaba funcionando como fator de pressão sobre os dirigentes. Como a campanha no turno até agora é satisfatória, com desempenho 100% em duas rodadas, a decisão foi aceita sem que ninguém se opusesse.
Do lado azulino, há também a preocupação em conter gastos. A nova diretoria refez cálculos e definiu que apenas um atacante e um ala esquerdo serão contratados para completar o elenco. A pretensão anterior era adquirir mais quatro atletas. Em caso de necessidade, o elenco será suprido pelos garotos da base, como fazem todos os times do planeta.
O posicionamento dos dois maiores clubes do Estado dá bem a medida dos problemas que rondam o futebol e deve ser aplaudido. Há uma necessidade imperiosa de cortar despesas e evitar desperdício de recursos com contratações que nem sempre resolvem os problemas.

Robinho e a síndrome de Peter Pan

Quando surgiu no Santos, ao lado de Diego e vários outros moleques bons de bola, Robinho parecia destinado a um futuro glorioso no futebol. Logo foi fisgado pelo dinheiro europeu e deixou o Brasil para jogar nos timaços do Real Madri e do Milan. Na Seleção, jamais justificou o cartaz e as chances que teve.
O sonho de se tornar melhor do mundo se perdeu em algum lugar das muitas transferências e do foco em garantir a chamada independência financeira. Alguns bons jogadores não conseguem manter o alto nível das atuações com a preocupação em acumular grana.
Robinho é um exemplo acabado desse tipo de atleta moderno. Mesmo já na descendente, embora ainda jovem, ainda teve chance no Manchester City, mas logo estava de volta ao Brasil naquele tipo de retorno que carimba a condição de ex-astro. Voltou ao Santos, saiu novamente e tomou o rumo da China.
Agora, ainda povoando as ilusões de grandes clubes brasileiros, faz charme e leilão entre Atlético-MG, Santos e Grêmio como se fosse um Peter Pan do futebol. Não é. Se os dirigentes forem espertos, despacham o ex-malabarista.

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