Coluna do Gerson Nogueira – 03.04.16

3 de abril de 2016 at 5:59 pm Deixe um comentário

À beira da exaustão

O clássico mais disputado do planeta, recheado de galardões que fizeram sua fama fora dos limites do Estado, corre um sério risco. Pode ficar esvaziado com o passar do tempo, risco que toda atração corre caso não se renove ou insista em servir pratos feitos à plebe.
Esse temor de esvaziamento progressivo do Re-Pa, que hoje à tarde se realiza pela segunda vez na temporada, se acentua pelas sucessivas quedas de público nos últimos três anos.
Em 2013, a média de público pagante no clássico foi de 25.830 espectadores – no anterior a média foi de 28.463. Em 2014, os números foram assustadoramente baixos: 16.519 de média nos estádios. No ano passado, a situação melhorou um pouco, subindo para 20.492.
Não se pode dizer que o motivo maior da perda de público seja a transmissão ao vivo para Belém, embora este seja um ponto também importante na história, desde que os clubes concordaram com a imprudência de exibir jogos para a própria praça onde a partida se realiza.
Ao lado da questão da TV existem vários outros fatores que conspiram contra a tradição do choque-rei. A violência urbana – e seu sanguinário tentáculo na seara esportiva, as gangues uniformizadas – é outro aspecto a considerar.
Nos últimos anos, muitos torcedores deixaram de comparecer aos estádios com medo de assaltos, arrastões e balas perdidas, acontecimentos corriqueiros dentro e fora dos estádios, principalmente em dia de Re-Pa.
Um sintoma óbvio disso é que a própria Polícia Militar, encarregada legalmente de cuidar da segurança das pessoas em eventos públicos, tem sido insistente na busca por soluções que reduzam o seu trabalho contra os baderneiros que dominam as torcidas organizadas.
É preciso considerar também a própria situação econômica da população, brigando diretamente com o fanatismo dos adeptos dos dois maiores clubes da Amazônia. Entre ir ao estádio e economizar pelo menos R$ 100,00 (arredondando aí o valor do ingresso, do transporte e do lanche) a tendência é pela decisão mais conservadora.
O fato é que o Re-Pa depende de motivações extremas. Só os muito fanáticos e os mais abonados é que ainda se dispõem a encarar todas as agruras que cercam a promoção do clássico, com ênfase nas dificuldades de acesso – acentuadas pelas obras intermináveis do BRT na Augusto Montenegro – e nos atropelos de ordem interna no estádio Jornalista Edgar Proença, onde até o ato de estacionar o carro representa um desafio à paciência humana.
Não se pode subestimar o papel dos próprios clubes nesse enredo. A progressiva decadência dos times, sempre desmanchados ao final de cada temporada e reféns de importação em massa de boleiros, influi fortemente sobre o ânimo do torcedor. O último ano de boa colheita nas bilheterias foi 2011, quando a média de público no maior clássico da Amazônia chegou a 28.684 – já com a transmissão pela TV Cultura.
Até então, os times ainda contavam com o apelo de bons jogadores, identificados com a torcida e capazes de valorizar a mitologia em torno do dérbi paraense. Aos poucos, porém, tudo isso foi se perdendo pelo caminho. O Papão ainda se manteve em alta, chegando à Série B, mas o Remo patinou na Série D e só no ano passado conseguiu o acesso à Terceira Divisão.
Todos esses fatores se juntam para conduzir a um processo de acomodação do torcedor, que muitas vezes hesita em comprar ingresso e sair de casa receando se decepcionar com o nível do espetáculo. É mais conveniente ficar no sofá torcendo ardorosamente pelo seu time sem correr maiores riscos. No máximo, alguns se aventuram a ir ao bar da esquina, torcer ao lado de outros que também se afastaram das arquibancadas.
Por conta dessa realidade, o Pará está em vias de perder um de seus grandes orgulhos: a pujança e gigantismo de suas torcidas. Pelo Brasil e até pelo mundo, a beleza dos estádios cheios em Belém gerou a imagem de uma terra fanática por futebol.
É claro que continuamos a amar o jogo, mas é visível que a cada ano essa paixão é alimentada à distância. Se os principais interessados não fizerem alguma coisa para deter essa sangria, logo Belém confirmará no futebol a fama histórica da cidade do “já teve” – nesse caso, a nostalgia será das imagens do Mangueirão superlotado. E só restará a saudade.

Bola na Torre

Guilherme Guerreiro comanda a atração, que começa logo depois do Pânico, por volta de 00h20.
Giuseppe Tommaso, Valmir Rodrigues e este escriba de Baião participam como debatedores, analisando todos os detalhes do Re-Pa.

Os nomes do jogo não entram em campo

Celsinho e Marcelo Veiga são os grandes nomes do jogo de hoje. Curiosamente, os dois não irão jogar. Até sábado, o meia-armador estava vetado pelo departamento médico do Papão por ainda estar se recuperando de uma lesão muscular.
Já Marcelo Veiga é o comandante azulino, recém-chegado ao Evandro Almeida para substituir a Leston Junior e tentar salvar a nau remista em meio aos banzeiros do returno do Parazão.
Ao contrário de Celsinho, cuja ausência é importante do lado bicolor, mas não chega a representar um drama mais sério para seu time, Veiga está com um senhor abacaxi nas mãos. Precisa vencer e vencer. Não há meio-termo.
Caso o Remo não consiga ganhar os três pontos, estará inapelavelmente eliminado do campeonato, abrindo mão do sonho do tri estadual. Veiga não tem a mínima culpa pela situação desesperadora.
O coquetel de erros em relação ao time é todo do técnico anterior, com ajuda dos dirigentes do setor de futebol, que também contribuíram para péssimas escolhas na hora de contratar.
Ocorre que o novo técnico já passou por isso antes. Em 2012, chegou também para uma missão quase impossível: classificar o Remo para a Série C com um time que havia sido montado por Edson Gaúcho. Veiga já tem pelo menos experiência nesse tipo de desafio.

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