Coluna do Gerson Nogueira – 22.07.17

22 de julho de 2017 at 7:36 pm Deixe um comentário

Para confirmar a evolução

 

O Papão tem hoje, em Pelotas-RS, a chance de emplacar uma série de três vitórias consecutivas no Brasileiro. Seria sua melhor sequência na competição, superando até o desempenho excepcional das quatro primeiras rodadas, quando somou 10 pontos e alcançou a liderança do campeonato. Apesar das dificuldades naturais enfrentadas por visitantes na Série B, as perspectivas são boas, levando em conta o momento do adversário, atravessando zona de instabilidade e estreando técnico (Clemer).

As recentes atuações do time, notadamente contra Criciúma, Vila Nova e Náutico, permitem crer que há um processo de evolução desde a contratação do técnico Marquinhos Santos. Até mesmo na última derrota, contra o Londrina (0 a 2) na Curuzu, a equipe já havia mostrado mais acertos do que erros. Perdeu a partida em detalhes pontuais, como um gol em impedimento e a perda de um pênalti.

Contra o Náutico, na última terça-feira, apesar do bom resultado, não se viu o mesmo desembaraço tático da partida diante do Vila Nova. Além da dificuldade natural em enfrentar um adversário fechado em seu próprio campo, a meia-cancha do Papão parecia travada. Fábio Matos pouco aparecia para o jogo. Diogo Oliveira entrou depois e pouco acrescentou.

Na verdade, o Papão sentiu falta de seu principal jogador. Rodrigo Andrade, destaque no triunfo sobre o Vila, cumpriu suspensão e causou um tremendo abalo à organização de jogo. Bom marcador e ativo participante das manobras ofensivas, quase sempre como o homem que surpreende as linhas inimigas, Rodrigo é hoje peça exponencial por descortinar as ações e também por ser um dos melhores finalizadores do time.

 

 

Quando o inimigo mora dentro de casa

 

A denúncia levada ao STJD contra o Papão por suposta prática de homofobia, no jogo contra o Luverdense, feita por um promotor do MP do Rio de Janeiro, assustou a torcida alviceleste ao longo da semana. Havia o receio de uma punição mais dura – perda de mando, por exemplo.

O clube foi absolvido pelo tribunal, com abrandamento do caso para multa de R$ 7,5 mil (que será revertida em doação de cestas de alimentos à Apae de Belém). O desfechou representou um alívio para todos, embora não possa e nem deva cair no esquecimento.

Os episódios ocorridos naquela noite poderiam ter tido consequências mais graves. A própria torcida atingida, a Alma Celeste, registrou nas redes sociais a situação de pânico diante das ameaças e ataques de uma gangue criminosa que costuma ter livre acesso ao estádio do Papão.

Aliás, a denominação dessas facções ditas organizadas já faz por merecer uma retificação. Há quem chame de “torcidas” para grupos que, na prática, não torcem. São organizados, sim, pois se reúnem e agem como bando, levando terror aos demais torcedores e até à vizinhança dos estádios.

Que o clube adote as medidas necessárias para que problemas dessa ordem não se repitam. Para isso, basta adotar uma providência simples e certeira: usar as 30 câmeras de monitoramento da Curuzu para identificar os baderneiros e inimigos do futebol.

 

 

Trajano e a dignidade do jornalismo esportivo

 

Na quinta-feira, o jornalismo esportivo ganhou um sopro de vitalidade e cidadania por obra e graça de José Trajano em seu canal na internet “Na Sala com Zé”, que transmitiu entrevista ao vivo com o ex-presidente Lula.

Acompanhado de Juca Kfouri, Antero Greco e o músico Carlinhos Vergueiro, Trajano comandou um bate-papo tão esclarecedor quanto bem-humorado, arrancando respostas sérias e algumas tiradas hilárias de Lula.

O entrevistado falou de questões relacionadas à sua condenação e ao confisco de bens, sem fugir a nenhuma indagação dos jornalistas. Tocou num assunto que nos diz respeito: a escolha das sedes da Copa do Mundo de 2014. Repetiu que não teve participação na definição das cidades-sede, responsabilidade que coube à Fifa e à CBF de Ricardo Teixeira.

Instado a opinar sobre as escolhas, Lula disse que não teria escolhido Manaus, e sim Belém, pela força das torcidas da dupla Re-Pa.

Do ponto de vista da profissão, o bate-papo com Lula serviu, como bem ressaltou Trajano, para mostrar que há vida inteligente na crônica esportiva, muito além das especificidades do ofício, que é normalmente associado à alienação política e o pouco interesse por assuntos ditos mais sérios.

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